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Matéria publicada em: 15/05/2018

Comperj: com obra parada e desemprego, Itaboraí fecha mais de 700 lojas e vê violência crescer

Segundo levantamento, desde a paralisação de megaprojeto da Petrobras em 2015, comércio na cidade do RJ enfraqueceu, e valor dos imóveis caiu quase pela metade, enquanto a ocorrência de crimes aumenta.

Por Carlos Brito e Daniel Silveira, G1 Rio

A interrupção das obras do Complexo Petroquímico do Estado do Rio de Janeiro (Comperj) em 2015 levou a cidade de Itaboraí, na Região Metropolitana, a uma situação de decadência econômica e de aumento da violência.

A atividade comercial despencou quase pela metade, e mais de 700 lojas fecharam. O mercado imobiliário esfriou, e os preços dos imóveis caíram quase 45% nos últimos 3 anos.

Milícias

Esse contexto permitiu ainda o avanço das milícias no município, que tem cerca de 230 mil habitantes, segundo o IBGE. A esperança da cidade agora é que a retomada da construção da Unidade de Processamento de Gás Natural (UPGN) no complexo traga novo ânimo para a cidade. A previsão da Petrobras é que as obras comecem ainda no primeiro semestre de 2018.


Uma das portas do Intercity - tapumes na entrada (Foto: Carlos Brito)

Em março deste ano, a Petrobras e a empresa chinesa Shandong Kerui Petroleum assinaram contrato no valor de aproximadamente R$ 1,95 bilhão. Espera-se que a obra crie 5 mil postos de trabalho na cidade. Atualmente, o número de desempregados estimado na região é de 17 mil.

Símbolo da derrocada pós-corrupção na Petrobras, a construção do Comperj começou a entrar em colapso em 2014, quando teve início a Operação Lava Jato. Naquele mesmo ano, o preço do petróleo no mercado internacional caiu do patamar de US$ 100 por barril para a faixa de US$ 40 por barril. Neste contexto, a Petrobras aumentou suas dívidas e foi obrigada a reduzir expressivamente os investimentos, paralisando totalmente as obras em Itaboraí no fim de 2015.

Escalada do crime

Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostram que, em março de 2017, o Indicador Estratégico de Letalidade – somatório de homicídios dolosos por intervenção policial, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte – registrou 10 ocorrências. Em março deste ano, foi quase o triplo: 25 casos.

Roubos de rua, que incluem as ocorrências de roubo a transeunte, de celular e em coletivo, aumentaram sete vezes. Em março de 2017, foram 29 casos. No mesmo mês deste ano, 206.

Os roubos a estabelecimentos quintuplicaram: foram 21 em março deste ano, contra apenas 4 no mesmo mês de 2017.

Veja abaixo mais dados do aumento da violência em Itaboraí:




Dados do crescimento da violência em Itaboraí (RJ) após suspensão de obra do Comperj (Foto: Infográfico: Wagner M. Paula/G1)

Crise no mercado imobiliário e no comércio

Na Avenida 22 de Maio, a principal da cidade, prédios comerciais enormes, construídos para receber as empresas ligadas às atividades do Comperj, estão praticamente vazios.

Um deles é o Enterprise City Center, um complexo que concentra dois blocos com 156 unidades residenciais, um shopping com 61 lojas, uma torre de espaços corporativos, duas torres de escritórios e uma torre de suítes – tudo em um terreno de 15 mil metros quadrados.


Enterprise: empreendimento gigante ficou praticamente vazio em Itaboraí (RJ) devido à paralisação do Comperj (Foto: Carlos Brito/G1)

Poucos metros à frente, do lado oposto da mesma via, está o Hellix Business Center, composto por duas torres comerciais com 156 salas e um hotel com 108 quartos, além de 57 lojas.

O imóvel é conhecido na cidade como “o prédio do heliporto” – local onde se esperava que pousariam e decolariam os helicópteros dos executivos das grandes empresas que viriam para a cidade atraídas pela operação do Comperj. As aeronaves, no entanto, nunca chegaram.

As duas construções imponentes são símbolos da decadência imobiliária nascida do colapso do Comperj. Com a exceção de algumas lojas, a maioria desses espaços permanece vazia.


Hellix: um dos maiores empreendimentos de Itaboraí, com boa parte das unidades vazia (Foto: Carlos Brito/G1)

Outro empreendimento que deveria ser o símbolo de uma era dourada para a cidade, o Hotel Intercity nunca chegou a funcionar. Tábuas e tapumes fecham os acessos ao imóvel. Na rua localizada nos fundos, em vez do movimento intenso de hóspedes, há apenas lama, buracos, mato e abandono.

“Em 2014, a arrecadação de Impostos Sobre Serviços da prefeitura era de R$ 30 milhões anuais. Hoje, não chega a R$ 3 milhões. Além disso, todos esses grandes empreendimentos imobiliários, como o Enterprise e o Hellix, estão quase que totalmente vazios. O hotel Intercity jamais abriu. Temos esperança, mas estamos no limite”, afirmou o prefeito Sadionel Souza.

Por todos os lados as placas de “Vende-se” e “Aluga-se” reforçam o aspecto de cidade-fantasma percebido em Itaboraí. Segundo o prefeito, existem pelo menos quatro mil salas comerciais fechadas no município. Levantamento da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL) feito nos últimos três anos mostra que o comércio da cidade encolheu mais de 40%.


Segundo prefeito, pelo menos 4 mil salas comerciais estão fechadas em Itaboraí (RJ) (Foto: Carlos Brito/G1)

Investimento frustrado

Logo após o anúncio da criação do Comperj, o engenheiro Roberto Martins e uma cooperativa formada por um grupo de amigos compraram dois terrenos em Itaboraí. O grupo já investia no ramo imobiliário e também em comércio.

Diante do grande fluxo de material que seria movimentado pelo complexo, optaram por uma área mais próxima da rodovia para uso comercial, e outra, no perímetro urbano, onde pretendiam erguer residências.

No entanto, a paralisação do complexo e a decadência da cidade congelaram os investimentos.

“Ficamos com os terrenos, nem chegamos a construir nada. Estamos abertos a propostas para negociá-los, mas só recebemos ofertas indecorosas de tão baixas. Agora, aguardamos para ver se as obras serão mesmo retomadas. Claro que não será forte como no início, mas já vai dar um alento à cidade, que vive uma situação muito difícil, quase calamitosa”, avaliou Martins.

Milícias

Com a economia do município em declínio, a ação de milicianos na cidade começou sua ascensão. Grupos criminosos em atividade controlam os transportes alternativos, bem como a venda de gás e assinaturas ilegais de canais pagos de TV.

Essas quadrilhas agem em menor proporção no Centro e de forma mais ostensiva em bairros periféricos, como Reta Nova, Reta Velha e São Joaquim. Além do controle de atividades econômicas, essas milícias também funcionam como grupos organizados de extermínio.

A titular da Divisão de Homicídios de Niterói, Itaboraí e São Gonçalo, delegada Bárbara Lomba, confirmou a presença de milicianos em atividade na cidade, mas não entrou em detalhes.

“Chegamos nesses grupos por meio de homicídios cometidos por seus integrantes. Há investigações em andamento sobre cada um deles”, afirmou.



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