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Matéria publicada em: 04/07/2019

Anfavea vê ameaça de mais importações de carros da UE no Brasil e convoca "corrida contra o tempo" por competitividade

Por Luciana de Oliveira e André Paixão, G1 — São Paulo
04/07/2019 - Foto: Luciana de Oliveira/G1

Presidente da Anfavea, Luiz Carlos Moraes, diz que indústria precisa correr contra o tempo para ser mais competitiva, diante da decisão de zerar impostos sobre carros vindos da União Europeia em 15 anos

Para o presidente da associação das montadoras, indústria nacional terá de melhorar custos de produção para enfrentar concorrência após acordo prever tarifa zero para bloco europeu.

Apesar de comemorar o acordo Mercosul-União Europeia, a associação das montadoras (Anfavea) entende que o fim do imposto de importação para carros feitos no bloco europeu pode ser uma ameaça à indústria automotiva brasileira, e convocou uma “corrida contra o tempo” por competitividade.

O pacto ainda não tem data para começar a valer -- para a Anfavea, isso deve demorar dois anos. Quando ele entrar em vigor, os veículos europeus terão tarifa reduzida gradualmente, até ela ser eliminada, dentro de 15 anos (veja mais ao fim da reportagem).

O novo presidente da Anfavea, Luiz Carlos Moraes, disse nesta quinta-feira (04/07) que agora a indústria nacional tem um prazo para buscar mais competitividade, referindo-se ao tempo até que o imposto para a UE seja zerado.

“O (eventual) aumento da importação é uma ameaça, mas a gente tem que atacar isso”, respondeu Moraes ao ser perguntado se as entradas de carros da UE no país poderão aumentar com o benefício fiscal.

Por competitividade, entende-se custo de produção de um carro no país.

O executivo não soube dizer o quão mais caro é fazer um automóvel no Brasil, mas a associação das montadoras divulgou, no começo do ano, um estudo comparando a indústria local com a mexicana, uma das que mais exportam.

De acordo com o levantamento, produzir um carro no México custa 18% menos do que no Brasil, sendo as principais diferenças em (gastos com) materiais e logística. “O 'gap' (diferença) em relação à União Europeia certamente é muito maior”, afirmou Moraes.

Mais acordos na mira

Segundo o executivo, o Brasil precisa ser mais competitivo não só por conta do acordo com a UE, mas porque outros pactos serão acertados.
Ainda nesta quarta, o presidente da Argentina, Mauricio Macri, disse que discute com o Brasil um acordo de livre comércio com os Estados Unidos.

Considerando a chance de exportar mais, o presidente da Anfavea entende que não é o caso de a indústria local se equiparar aos europeus em todos os produtos, mas “focar no que a gente pode ser melhor”.

Como exemplo, Moraes citou a possibilidade de produzir e vender ao exterior carros híbridos que aceitem gasolina e etanol, uma novidade já anunciada pela Toyota para o mercado nacional.

Mesmo tendo reconhecido desafios para as montadoras, o executivo comemorou o acordo como um todo: “Agora estamos na Champions League (Liga dos Campeões, o maior torneio do futebol europeu)”. E destacou que a indústria automotiva também poderá ser beneficiada por medidas ligadas a outros setores, como o agronegócio.

O Brasil exporta para a UE?

O presidente da Anfavea informou que o novo acordo também prevê redução de tarifas pelo bloco europeu para carros fabricados no Mercosul, contrapartida que não fica clara nos textos preliminares divulgados até agora pelo governo e a União Europeia.

Esses princípios ainda serão revisados, e o texto final do pacto terá de ser aprovado pelo Parlamento Europeu e os congressos de todos os países do bloco sul-americano.

Mas a exportação para a Europa ainda é baixa. Segundo a associação, o Brasil vendeu cerca de 2 mil veículos para o bloco no ano passado, a maioria carros. O montante é pouco perto dos 630 mil exportados ao longo de 2018, a grande maioria para a Argentina.

De acordo com dados do antigo Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), em termos de valores, ao todo, foram vendidos US$ 5,1 bilhões em carros para o exterior no ano passado.

Desse montante, pouco mais de US$ 13 milhões foram em exportações para a União Europeia, o que representa menos de 0,3% do total.

Entre os países do bloco europeu, a Alemanha foi quem mais comprou carros brasileiros, ainda pelo ranking em valores. Foram US$ 4,8 milhões, em 2018. Em seguida, ficaram Bélgica (US$ 4,5 milhões), França (US$ 1,1 milhão) e Itália (US$ 686 mil).

15% dos carros vêm da UE

A balança comercial entre União Europeia e Brasil, considerando a venda de carros, ainda é bem desequilibrada.

Tendo vendido cerca de US$ 13 milhões ao bloco europeu, o Brasil comprou US$ 661 milhões em automóveis da UE no ano passado, ainda segundo dados do governo federal.

O valor equivale a 15,6% do total de importações de carros, que foi de US$ 4,19 bilhões.

A maior parte dos modelos trazidos de fora do Brasil vem da Argentina, onde a maioria das grandes marcas tem fábrica, aproveitando a isenção da tarifa de importação e do Imposto sobre Produto Industrializado (IPI), vantagens que existem para comércio entre países do bloco sul-americano.

Entre os europeus, a Alemanha também foi quem mais exportou veículos para o Brasil no ano passado, ainda em termos de valores: US$ 253 milhões ou pouco mais de 5% do total comercializado.

Em seguida, aparecem Reino Unido (US$ 131 milhões), França (US$ 86,4 milhões) e Suécia (US$ 48,9 milhões).

Redução gradual do imposto

A redução de imposto de importação do Mercosul para carros da União Europeia acontecerá de duas formas, segundo a Anfavea:

- primeiro, uma cota anual de 50 mil veículos (32 mil só para o Brasil) vai pagar metade da alíquota, que hoje é de 35%. Isso vale para os primeiros sete anos do acordo;

- a partir do 8º ano, o imposto começa a cair para todos os carros da UE, gradualmente. As alíquotas devem ficar assim:

ano 8: 28,4%

ano 9: 21,7%

ano 10: 15%

ano 11: 12,5%

ano 12: 10%

ano 13: 7,5%

ano 14: 5%

ano 15: 2,5%

ano 16: zero

Também haverá redução “linear” do imposto para autopeças, diz a associação, entre 10 e 15 anos.


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