Fonte: Valor Econômico – 13/02/2026

Os custos logísticos no Brasil atingiram o valor de R$ 1,96 trilhão em 2025, valor equivalente a 15,5% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, segundo o estudo anual “Custos Logísticos e o Impacto nas Empresas Brasileiras”, elaborado pelo Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos).

Houve uma queda ligeira em comparação aos 15,6% de 2024, mas o patamar é considerado insatisfatório para um país com as características brasileiras. Em 2014, por exemplo, essas despesas representavam 10,4% do PIB, o que demonstra uma alta considerável para as empresas do setor.

Embora essa relação entre custo logístico e PIB esteja abaixo do maior patamar de 16% do PIB registrado em 2022 e 2023, em meio à retomada da economia após a pandemia de covid-19, o sócio-diretor do Ilos, Maurício Lima, explica que o problema é que o nível deveria estar caindo em ritmo mais acelerado.

“O ano de 2022, principalmente, teve muita busca por logística em meio a uma retomada das cadeias globais e naturalmente houve um aumento considerável nessa relação entre custo logístico e PIB em todo o mundo. O problema é que, no Brasil, está caindo muito pouco”, diz Lima. Ele acrescenta que o ponto mais curioso é que, apesar de o custo se manter alto, as empresas do setor tampouco aumentaram os seus lucros e o preço médio do frete e dos combustíveis estão estáveis. Mesmo assim, as empresas estão trabalhando com margens apertadas, afirma.

Segundo o diretor do Ilos, o Brasil passa por um fenômeno que envolve o conjunto de taxa de juros elevada, com a Selic em 15%, e um déficit considerável de infraestrutura para escoamento e armazenagem da produção, incluindo a baixa capacidade para diversificar os modais. “Somos muito dependentes de rodovias, o que é uma trava para um crescimento econômico duradouro.”

“Eu brinco que o Brasil é o país do 1,9%. Quando atinge o crescimento econômico de 1,9% ou 2% ao ano, os gargalos aparecem porque modais como ferroviário e o aquaviário não têm a capacidade para absorver o aumento da demanda, o que sobrecarrega o rodoviário e os custos logísticos aumentam. Enquanto não tivermos investimentos eficazes para expandir essa infraestrutura, não escaparemos disso”, complementa Lima.

De acordo com os dados do estudo do Ilos, as rodovias responderam, em 2025, por 63,4% das mercadorias que foram transportadas dentro do Brasil. As rodovias, 18%, enquanto o modal aquaviário transportou 14,6% e o dutoviário, que permite o deslocamento de cargas como gás e petróleo, por exemplo, meros 4,1%.

Nesse cenário, um dos pontos destacados como gargalo é que, além da baixa capacidade dos demais modais de absorver a demanda em período de crescimento da economia, como é o caso atualmente, apenas 13% da malha rodoviária brasileira é asfaltada, segundo o Departamento Nacional de Transportes Terrestres (Dnit).

Por isso, conforme observa Lima, o número crescente de Parcerias Público Privadas e concessões para rodovias não tem resolvido o problema. O Brasil tem algo próximo a 1,7 milhões de quilômetros de estrada e cerca de 220 mil quilômetros são pavimentados. E o número mais gritante é que a parte concessionada é de aproximadamente 20 mil quilômetros. Ou seja, pouco mais de 1% do total de rodovias [já asfaltada] é concessionada. Isso é uma dificuldade para o país”, diz.

O diretor do Ilos defende a expansão de modelos de concessão que atraiam a iniciativa privada para construir novas malhas asfaltadas para ajudar a reduzir os custos logísticos no país, principalmente em períodos de crescimento econômico e alta demanda por serviços de transporte.

“Com a infraestrutura atual, os modais ferroviário e aquaviário não dão conta do aumento de demanda, e todo mundo precisa ir para as rodovias, que tampouco dão conta e ficam mais caras. É como se uma pessoa precisasse andar de táxi porque não consegue usar o metrô. Mesmo que o custo do táxi esteja estável, vai acabar sendo mais caro”, explica Lima.

O especialista diz que, no cenário ideal, a relação entre custo logístico e PIB no Brasil deveria voltar pelo menos ao patamar de 12% de 2019, ano anterior à pandemia. Nos Estados Unidos, por exemplo, essa relação está em 11%, enquanto na China é de aproximadamente 14%.

Ele menciona também um gargalo atualmente nas áreas de armazenagem e estoque, que faz parte do cálculo de custo logístico junto com transportes. “É outro ponto em que também estamos atentos porque os custos têm aumentado com o crescimento do varejo on-line e a pouca infraestrutura prévia que havia para esse tipo de serviço, além da taxa de juros elevada que sempre acaba aumentando o custo do negócio”, conclui Lima.