
Mudanças nas escalas de trabalho podem elevar custos, pressionar empregos e afetar setores intensivos em mão de obra, como o transporte
Fonte: Poder 360 – 18/05/2026
Vander Costa, presidente do Sistema Transporte
A discussão sobre a diminuição das horas trabalhadas precisa ser sustentável para o setor produtivo, diz o articulista; na imagem, pessoa contando notas de R$ 50.
O Congresso se debruça atualmente sobre mudanças na jornada de trabalho, uma agenda que impacta não só os trabalhadores, mas também o setor produtivo e, em certa medida, toda a cadeia econômica do país.
A discussão dialoga com a qualidade de vida, a organização do trabalho e a evolução das relações produtivas. A questão central, no entanto, é como promover essas mudanças de forma sustentável e equilibrada, sem criar efeitos colaterais indesejados sobre o emprego, os custos e o funcionamento da economia brasileira.
Diante da relevância do tema, o debate legislativo precisa ocorrer com profundidade, responsabilidade e serenidade, sem contaminações políticas e pressões de outros Poderes, especialmente em um ambiente pré-eleitoral.
É fundamental que essa discussão seja transparente e plural, permitindo que todos os setores impactados contribuam com informações e evidências sobre benefícios, desafios e riscos associados a mudanças abruptas na legislação trabalhista.
Um estudo (PDF – 6,2 MB) recente encomendado pela CNT (Confederação Nacional do Transporte) ajuda a iluminar esse cenário. A redução da jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas pode provocar, no longo prazo, impacto estimado em R$ 11,88 bilhões no setor de transporte. Caso a redução seja para 36 horas, o impacto pode chegar a R$ 27 bilhões.
Não se trata de números abstratos. O estudo, coordenado pelo sociólogo e professor da USP José Pastore e pelo economista Paulo Rabello de Castro, mostra que a alteração da jornada sem ajuste proporcional de salários provocaria aumento imediato de 10% no valor da hora trabalhada. Atualmente, 92,5% dos profissionais do transporte atuam dentro do limite legal vigente, o que demonstra o elevado grau de formalização do setor. Nesse contexto, mudanças na escala de trabalho podem elevar em 8,6% os custos com pessoal, ampliando riscos de informalidade.
O transporte é uma atividade intensiva em mão de obra e absolutamente essencial para o funcionamento do país. É o setor que garante abastecimento, mobilidade e integração econômica entre regiões. Alterações significativas em sua estrutura de custos inevitavelmente se refletem no preço dos fretes, nas tarifas e, em última instância, no custo de vida da população.
O estudo estima ainda que, para manter o atual nível de serviço diante de jornadas reduzidas e novas escalas, seria necessária a contratação de aproximadamente 240 mil trabalhadores adicionais. Esse dado revela um desafio relevante: o setor já enfrenta escassez de mão de obra e envelhecimento da força de trabalho. A dificuldade de reposição de profissionais não é uma realidade exclusiva do Brasil, mas um fenômeno observado em diversas economias, o que torna ainda mais complexo ampliar rapidamente o número de trabalhadores.
Diante desse cenário, é fundamental reconhecer que mudanças dessa magnitude produzem efeitos sistêmicos. O aumento de custos reduz investimentos e, em determinados casos, pode levar ao encerramento de atividades, especialmente entre pequenas empresas e operadores autônomos. Paralelamente, surgem riscos indiretos sobre emprego, informalidade e inflação.
Outro ponto relevante diz respeito à diversidade das atividades econômicas. O Brasil é um país de dimensões continentais, com setores que operam sob dinâmicas bastante distintas. No caso do transporte, trata-se de uma atividade contínua, que funciona todos os dias da semana e depende de escalas específicas para garantir sua operação. A adoção de modelos rígidos e uniformes, definidos por meio de mudanças constitucionais, tende a desconsiderar essas particularidades.
A experiência internacional oferece um caminho mais equilibrado. Na maior parte dos países, a definição das escalas de trabalho ocorre por meio de negociação coletiva, permitindo ajustes conforme a realidade de cada setor e empresa. Esse modelo preserva flexibilidade, incentiva ganhos de produtividade e evita distorções capazes de comprometer o funcionamento do mercado de trabalho.
O Congresso tem papel central nessa discussão. É o espaço legítimo para construir soluções que conciliem interesses, avaliem evidências e considerem impactos de longo prazo. A complexidade do tema exige diálogo qualificado, escuta ativa e responsabilidade na formulação de políticas públicas.
Em um ambiente político naturalmente mais sensível, é importante evitar que temas estruturais sejam capturados por conjunturas de curto prazo, especialmente eleitorais. A modernização das relações de trabalho é relevante demais para ser conduzida sob a lógica da polarização ou da simplificação de um debate que envolve múltiplas variáveis.
O Brasil pode, sim, avançar na direção de jornadas mais equilibradas. Mas isso deve ser feito com planejamento, responsabilidade e diálogo entre trabalhadores, empresas e instituições.